quinta-feira, 18 de setembro de 2008

O BURLESCO, ou a moral da "tarte à la crème*":

Petr Kràl (escritor checo nascido em Praga em 1941) fala-nos neste livro do burlesco no cinema; mas o seu discurso é amplo e entre outras coisas faz referência à banda-desenhada:
«Se todas as vedetas do cinema mudo se transformam no ecrã em seres ideais, um Chaplin ou um Lloyd, para os seus espectadores, não são mais do que criaturas de todo imaginárias. Na ideia da maioria, eles apagam-se completamente perante a "silhueta" das suas personagens: foi assim que, num concurso de imitadores do Charlot, o próprio Chaplin não conseguiu mais do que... o terceiro lugar. Muitas vezes, não atribuimos mais realidade ao herói do burlesco do que ao da banda-desenhada. Certos cómicos não fizeram mais do que retomar no ecrã personagens de comics; outros juntaram-se aos heróis desenhados depois de célebres. (...) Harpo Marx toma-se ele próprio por uma personagem de banda-desenhada: quando, numa cena de "Duck Soup", Groucho lhe pergunta quem ele é, ele mostra simplesmente a sua caricatura, tatuada em um dos braços.»

^^^ Charlot num desenho de Elzie C. Segar (1894-1938 - o criador do Popeye "original").

^^^ Groucho Marx, por Will Elder (1921-2008).

^^^ Groucho Marx, outra vez, por Gotlib (1934-...).

^^^ E duas páginas de um "Eight Pager" dos anos 30 do século passado, com três dos irmãos Marx.

Os "Eight Pagers", como nos relata Frémion no nº209 da revista "Fluide Glacial" (Novembro de 1993), eram vendidos à socapa nas universidades, nas fábricas, nas ruas... Várias foram as celebridades retratadas nestas histórias de oito páginas de temática claramente pornográfica: Popeye**, Mickey, Betty Boop, Greta Garbo, Churchill... e até o Gandhi!... Também eram chamadas de "Tijuana Bibles", como a cidade mexicana do mesmo nome, mas sobre isto e muito mais aconselho a leitura do ensaio/introdução, intitulado precisamente "Tijuana Bibles", de Art Spiegelman...

TUDO ISTO vem a propósito de Fernando Pessoa, é claro:
- segundo a invetigadora pessoana Teresa Rita Lopes, Fernando terá adquirido bandas-desenhadas deste tipo (em francês***) durante o ano de férias que passou com a família em Portugal (1901-1902****), e de regresso a Durban tê-las-á "partilhado" com os colegas de escola... E essa, hem?
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*: Tarte de creme, tarte com creme?
**: Ainda hoje, na internet, circulam animações rudimentares deste tipo. Um camarada blogger enviou-me uma há uns tempos, com o "potente" Popeye.
***: Não dispondo neste momento dos meus apontamentos referentes a esta matéria, farei posteriormente um update com dados mais concretos.
****: Logo, antes da era das estrelas de Hollywood.

2 comentários:

Nuno disse...

Será no Pessoa por Conhecer, da T. R. Lopes? Por acaso é um livro que me falta e que procuro há algum tempo, mas que não consigo encontrar nos alfarrabistas...

Miguel Moreira disse...

Eu penso que é, Nuno.
Realmente, é um livro difícil de consultar; já o vi à venda na feira de alfarrabistas no Chiado mas não é o tipo de livro que fica sem comprador durante muito tempo... apesar do preço. Ainda para mais, nas bibliotecas onde o vi até agora, não me foi possível requisitá-lo. Só me restou fotocopiá-lo (aos poucos), o que também sai caro - menos do que se o comprasse, espero eu - porque é de facto um livro importante sobre F.P.; quanto a este "detalhe" biográfico, retive-o na memória mas como não o ia aproveitar para esta biografia desenhada, não sei do seu paradeiro...